Cassilândia
Coluna Linguística - Como normas viraram regra na Língua Portuguesa
*Por Gabriel Pinheiro
Quando foi que a nossa língua começou a ser “certa” ou “errada”? Essa pergunta parece simples, mas esconde uma história longa e cheia de camadas políticas, culturais e ideológicas.
Para quem está começando a entender o porquê de tantas regras no português, vale saber: a gramática normativa, aquela das regras “certinhas” que costumamos estudar na escola, não caiu do céu. Ela foi construída. Como toda construção, tem alicerces, autores e até disputas.
Tudo começou lá atrás, no século XVI, em pleno Renascimento. Nesse momento histórico em que o mundo se voltava às artes, à ciência e aos livros, Portugal estava de olho em algo mais: organizar a língua portuguesa. Em 1536, Fernão de Oliveira publicou a primeira gramática do português, um marco histórico. Seu livro, “Grammatica da lingoagem portuguesa”, inovava ao tentar descrever o idioma de forma sistemática. O início de um movimento que buscava dar prestígio ao português, equiparando-o ao latim, língua das elites e dos estudos.
Quatro anos depois, veio João de Barros, com uma gramática mais alinhada ao modelo latino, rígida, normativa, tradicional. Influenciado por Antonio de Nebrija, que havia escrito a gramática do castelhano, Barros ajudou a colocar o português no “trilho do certo”, moldado por uma ideia de correção vinda de fora.
No Brasil do período colonial, os jesuítas ensinaram mais latim do que português aos índios. A língua do colonizador ainda não era alvo de estudo sistemático por aqui. Só em 1816 surgiu a primeira gramática escrita e publicada em solo brasileiro: “Arte de grammatica portuguesa”, do Padre Inácio Felizardo Fortes, o pontapé inicial de uma tradição que se firmaria com força no século XX.
Foi com Eduardo Carlos Pereira, em 1907, que a gramática normativa ganhou status oficial. Sua “Gramática Expositiva” virou presença obrigatória nas escolas, especialmente no Colégio Pedro II, o centro do ensino de elite no Brasil da época. Foram mais de 96 edições da versão completa e 153 da versão elementar. Um verdadeiro fenômeno editorial. A partir daí, o que era norma virou regra; o que era regra virou lei escolar.
Ao longo do século XX, uma verdadeira galeria de nomes se formou: Napoleão Mendes de Almeida, com sua Gramática Metódica (mais de meio milhão de exemplares vendidos); Celso Cunha, que uniu forças com Lindley Cintra para escrever a Nova Gramática do Português Contemporâneo (1984); e, claro, Evanildo Bechara, o nome mais influente da gramática brasileira no século XX.
Bechara foi mais que um gramático, foi um arquiteto da norma culta. Sua Moderna Gramática Portuguesa moldou o ensino da língua nas últimas décadas, acompanhando reformas ortográficas e consolidando a ideia de que há, sim, um “português ideal” a ser seguido. Seja em provas, concursos ou na vida acadêmica, seus livros ainda são referência.
Mas o que tudo isso significa? Que a ideia de “certo” e “errado” na língua é histórica, construída e, sim, uma questão política. Por trás das regras, estão decisões de elite, interesses educacionais e tentativas de controle simbólico. Entender isso não é jogar fora a norma culta (ou norma padrão), é compreendê-la como uma convenção, e não como uma verdade divina.
Esse é o primeiro passo para dominar a língua… com consciência crítica.
*Gabriel Pinheiro é professor, psicopedagogo e mestrando em Linguística pela Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp