Cassilândia
Antigo "poceiro" narra os riscos e a evolução da perfuração em Cassilândia
Em entrevista nostálgica, Raimundo Santos relembra poços de 30 metros de profundidade cavados à mão e o uso de técnicas rudimentares de segurança.

O programa Rotativa no Ar recebeu nesta sexta-feira, 3 de julho de 2026, o senhor Raimundo Pereira dos Santos, uma figura conhecida na região que, embora já tivesse compartilhado outras histórias de sua vida, revelou detalhes inéditos sobre sua antiga e perigosa profissão: a de poceiro e furador de fossas. Estima-se que, ao longo de sua carreira, Raimundo tenha perfurado cerca de cem fossas e inúmeros poços em Cassilândia e em fazendas da região.
O "prédio de 10 andares" debaixo da terra
Um dos relatos mais impressionantes de Raimundo foi a perfuração de um poço em uma propriedade rural (antiga terra de Dona Belmeira/Zezinho Cambraia), que atingiu quase 30 metros de profundidade. Para se ter uma ideia da magnitude do trabalho, os apresentadores compararam a distância a um prédio de até 10 andares. O trabalho era extremamente insalubre e perigoso: o poço possuía apenas 1,5 metro de diâmetro, e Raimundo descia sem equipamentos modernos, muitas vezes enfrentando terrenos arenosos sem qualquer calçamento inicial. "Eu decidi descer... sinceramente, pensei que não voltava mais", relembrou o antigo poceiro sobre o temor de ficar preso nas profundezas.
Riscos de morte e soterramentos evitados
A profissão exigia um instinto aguçado para o perigo. Raimundo narrou um episódio marcante ocorrido próximo ao Salto, na propriedade do Sr. Arnaldo, um açougueiro. Enquanto limpava um poço, ele sentiu a terra caindo sobre seus pés e, ignorando os pedidos do proprietário para continuar, decidiu sair imediatamente. Pouco tempo após sua saída, o poço desmoronou inteiramente.
Técnicas de precisão e o "segredo" dos gravetinhos
Apesar da falta de tecnologia, a técnica era refinada. Para garantir que o poço ficasse perfeitamente redondo e reto, Raimundo utilizava uma corda para traçar o raio do círculo e descer verticalmente com precisão.
Ferramentas: otrabalho era feito manualmente com ponteiro e marreta, especialmente quando encontravam camadas de pedra. Houve poços em que o progresso era de apenas 20 a 30 centímetros por dia.
Segurança: em terrenos instáveis, eles utilizavam tijolos e massa de cimento para escorar as paredes, fazendo o revestimento de baixo para cima.
Localização de água: Raimundo mencionou a técnica dos "gravetinhos" usada por seu sogro e outros antigos mestres, que utilizavam galhos de árvore para detectar "veios" de água no solo.
O início e o fim de uma era
Raimundo começou na profissão por necessidade, aprendendo sozinho ao observar outros profissionais. Seus primeiros trabalhos foram para consumo próprio e para seu sogro, estendendo-se depois para vizinhos. Hoje, ele reconhece que a profissão foi praticamente abandonada com a chegada de métodos modernos de perfuração, mas deixa um legado de coragem e trabalho manual que ajudou a desbravar o saneamento básico de Cassilândia.
Confira a íntegra da entrevista: